Quarta-feira, 07 de Setembro de 2005
Já tinha-se tornado rotina acordar cedo e dar uma volta a pé. Eu estava a acordar naturalmente mais cedo que o normal. Seria normal também continuar deitado mesmo que não tivesse sono. Mas o professor, já estava ao computador a ver os emails à mais de meia hora quando eu finalmente acordava e mal percentia que eu tinha aberto os olhos começava a fazer os seus exercicios de aquecimento. Acho que ele andava entusiasmado por poder ter algum tempo e companhia para dar umas longas caminhadas e corridas que, a julgar pelo tamanho da sua barriga, a vida na universidade não lhe permitia. Não me dava chance de recusar e lá tinha eu que calçar as sapatilhas. Mas as caminhadas eram sempre refrescantes. Quando voltava ao quarto depois de uma caminhada de 3 Kms, tinha de certo uma desculpa para abusar daquela sala de iguarias internacionais que era a sala dos pequenos almoços.
Depois disso, quase sempre separava-me do professor porque tínhamos interesses diferentes nas sessões que queríamos assistir. Ele sempre interessado em sistemas de limpeza de biocontaminantes e eu mais interessado em levantamento de particulas do chão quando as pessoas caminham e de certa forma interessado em voltar ao quarto aonde queria estudar para o meu exame de doutoramento, e começar-me a preparar seriamente para a minha apresentação a realizar-se na sexta-feira. Tinha ainda que decidir se iria ou não com o Jason visitar a sua cidade de Dalian e a sua familia. Naquele momento estava bem inclinado em aceitar, tanto mais que o Jason me tinha dito que o preço de uma passagem de ida e volta rondava os $100, cerca de 80 Euros. Depois, que eu não precisava de passar mais do que 3 dias por lá. O preço e a duração começavam a parecer-me mais razoáveis do que nunca.
Nesse dia durante uma apresentação, fiz a minha primeira intervenção com algumas perguntas ao apresentador. Em outras conferências em que tinha estado, sempre tive uma pergunta para fazer mas nunca a certeza do que do que iria perguntar. Por isso, sempre ponderei bem o beneficio de esclarecer um dúvida e o vechame de uma pergunta inconveniente. Mas, acho que depois de alguns anos envolvidos na investigação, ganhei o à vontade e confiança necessária para participar nas apresentações. Parece que as perguntas foram bem colocadas e as respostas do interesse de todos. Não gosto de fazer perguntas de ataque e que possam deixar o(a) apresentador(a) embaraçado(a), mesmo que tivesse a oportunidade de o fazer. Vi suficientes pessoas da audiência a fazerem perguntas apenas para realçar os pontos negativos da apresentação, para saber que isso não ajuda em nada e contribui unicamente para denegrir a imagem de todos. Em alguns casos a coisa chegou a aquecer e pequenas discussões iniciavam. Eu prefiro lançar uma perguntar mais ao lado que leve o locutor a ponderar e a detectar por si mesmo que talvez haja qualquer coisa no seu estudo que precise ser pensado. Desta forma crio um(a) aliado(a) com quem posso debater ideias em vez de um(a) inimigo(a) à espera de me atacar com o mesmo peso e medida na minha próxima apresentação.
A coisa quase sempre resulta bem. Depois dessa apresentação e enquando servia-me o almoço, um professor dinamarquês interrompeu-me para se apresentar e sugerir que almoçásse-mos juntos, o que aceitei. Ele fazia investigação na mesma área que eu à mais de 10 anos e estava interessado naquilo que estavamos a desenvolver na Penn State University. Depois de explicar-lhe ficou entusiasmado e curioso e mostrou interesse para partilhar informação e ideias comigo. Senti-me lisonjeado com isso. Nunca tinha acontecido que alguém de fora da universidade estivesse tão curioso com o meu trabalho. Trocamos os nossos contactos. Neste momento, já mandamos alguns emails para trás e para frente com algumas ideias.
Depois do almoço era altura de fazer um passeio turismo que eu estava ansioso por fazer à muito tempo. A visita à grande muralha da China.... ou melhor.... a visita a uma pequena porção dos 6500 Km da muralha!
A organização pois à disposição auto-carros para poder levar todas as 800 pessoas que se inscreveram para o passeio!
Uma hora de viagem e chegavamos à muralha.
A muralha da China é de cortar a respiração. Não basta ver nas fotos. É preciso ir lá e tentar imaginar tamanha construção realizada em zonas tão inóspitas que leva um a pensar como diabo iria um invasor subir tão íngrime montanhas? E aquele muro corre por kms a perder de vista sempre acompanhando o cume das montanhas.... pensar que aquelas pedras foram todas esculpidas quase sem ferramentas.... estonteante..... acho que vi suficiente pessoas na muralha a matutar sobre isso. Comprei algumas recordações, que levou bastante negociação antes que o preço baixa-se para níveis mais próximos dos preços típicos para chineses, e viemos embora.No autocarro tive a sorte de sentar-me ao lado de uma das pessoas mais famosas no mundo da QAI, o professor Fanger da dinamarca. Este ao saber que eu era Português não deixou de gabar a sua primeira cerimónia de doutoramento honorário em Coimbra em que o Professor Oliveira Fernandes (Professor Catedrático de Transferência de Calor na FEUP) tinha participado e, certamente convidado. Avançou que jamais se esquecerá o requinte da cerimónia e o jantar num dos palácios reais. Os onze doutoramentos honorários que se seguiram em outros países nunca seriam tão dislumbrantes como o do Coimbra.
Chegados ao hotel, era altura de fazer planos para essa noite. O professor tinha uma reunião com uns professores da Singapura. O Jason queria sair, a Yazhuo e o Alex não podiam. O Bin, um amigo da universidade que tinha chegado a Pequim nessa tarde queria jantar. Portanto, toca a combinar com todos e chamar as suecas que tanto reboliço causou no Jason, que mesmo sem as conhecer, já estava a dar-lhe a volta à cabeça. Claro que algumas histórias que lhe contei e passadas nos Verões do Algarve tinham-lhe aumentado a curiosidade.
20 minutos de taxi, e 10 minutos a pé e estávamos sentados à mesa de um restaurante local com comida tradicional de uma região do sul da China (ChongQing). O menu era dificil de ler! O Bin teve que fazer as hostes da casa e traduzir tudo.

A comida na China é totalmente diferente daquilo que se serve nos restaurantes chinese do mundo ocidental. Em State College não passa uma semana sem que eu vá pelo menos uma vez a um dos muitos restaurantes chineses. Mas sempre me enganei a pensar que comia comida chinesa. A verdadeira comida chinesa não tem paralelo com o que se come nos restaurantes. É 100 vezes melhor... no mínimo.... e a comida vem com todos os extras que possam imaginar, extras esses que são removidos nos "países do Ocidente"..... coisas como espinhas, ossos, patas, cartilagens, estômago de vaca, sangue... vem lá tudo. Não é que me arrepiasse.... afinal, em Portugal também comemos de tudo. Mas não se vê estas iguarias nos nossos restaurantes chineses. Qual chop sue de gambas??? Na China pega-se no caranguejo e parte-se à dentada e cospesse os restos da carapaça para a mesa.
Claro que na China se vai além disso. Não em todo o país, mas existem zonas aonde animais para nós domésticos são parte da gastronomia e outras coisas como baratas e serpentes. Isso toda a gente já ouviu e é verdade. Mas não em Pequim.
As suecas já tendo experimentado ao de leve no hotel o mastigar de alguns ossitos estavam um bocado apreensivas nesta sua primeira vez num restaurante chinês de rua. Tão apreensivas andavam, que nos dias anteriores tinham jantado na Pizza Hut do centro comercial ali ao lado! Por tanto, naquele restaurante e logo para começar disseram que eram vegetarianas! Depois de alguma tradução do menu, perceberam que nem tudo vinha com ossos e cartilagens, e passaram a ser meias vegetarianas. Quando a comida apareceu na mesa e depois de a terem provado deixaram o vegetarismo de lado e passaram a comer tudo o que podiam.... com todo o gosto. A comida estava mesmo boa. O vinho chinês não estava mau e tivemos que encomendar outra garrafa.
O Jason ainda não tinha chegado. Possivelmente andava a passear com alguma amiga que o irmão lhe tinha apresentado. Ultimamente a familia andava preocupado com ele, porque na sua idade (31 anos) o “normal” na China seria que ele já tivesse casado e com filhos. Por isso, quando ele voltava a casa a primeira coisa que lhe perguntavam era pela namorada. Mas, mais uma vez, ele voltava sem namorada. Portanto, numa tentativa de mudar o seu destino a familia apresentava-lhe geralmente algumas amigas. Esse facto era apreciado pelo Jason porque quando as amigas chegavam a ele já vinham com aquela boa impressão que só a familia consegue transmitir!
O Jason, tinha passado o final da tarde com uma rapariga que por sinal, ao fim de dois dias estava doida por ele. Ele também se encantou por ela. Ela era jovem, bonita e, ao contrário do habitual, possuía um apartamento e uma casa só para ela em pleno Pequim e conduzia um BMW descapotável. Parecia que tinha encontrado a mulher perfeita. No entanto, com a sua vida nos EUA não era fácil manter uma relação à longa distância com uma rapariga que tinha apenas conhecido.
Quando ele chegou ao restaurante vinha claramente alegre.
Tinha passado um bom fim de tarde.... aliás, como já passava das 22h00, o passeio tinha-se prolongado para além da tarde e para além da hora marcada do nosso jantar! Fiz notar-lhe que horas marcadas com amigos são horas para cumprir. Mas ele imediatamente apontou que há certos assuntos que simplesmente não podem ser adiados, sobretudo naquele dia em que a tentativa de obter uma entrevista na embaixada dos EUA na companhia do Alex tinha, mais uma vez, saído frustradas e ele precisava alguma atenção mais chegada.
O Jason serviu-se de um copo de vinho e num instante lançou-se numa conversa alegro mas non-tropo (por enquanto) com as suecas. Este tipo saiu-me cá um adagio do caneco.
O Bin começou a sentir-se cansado e preferiu voltar ao hotel e o resto do grupo seguiu para uma zona de bares. Era quarta-feira e, mais uma vez, a vida nocturna estava um bocado morta. Demos uma volta pela rua dos bares, entrámos em duas discotecas de aspecto duvidoso e acabamos por preferir sentar na esplanada de um bar. A noite estava quente e uma Tsing Tsao fresquinha soube mesmo bem. Ao fim de duas horas de conversa decidimos que eram horas de voltar. Metêmo-nos todos no mesmo taxi, incluindo o Jason, que reparou que se tinha esquecido da chave da casa do irmão e não queria acordá-lo àquela hora da noite. Por isso convidei-o a ficar no hotel. Afinal, só estavamos eu, o professor e o recém chegado Bin a dormir no quarto e, certamente que caberia mais um. Chão não faltava, ou se quisesse podia dormir na mesma palhota que eu, desde que aguentasse com os roncos do professor que àquela hora já devia fazer cintilar os castiçais do corredor!
Mas, ele ao ver quanto as camas eram estreitas achou que talvez não fosse boa ideia. Dormir num pedaço do chão que não tivesse ocupado por algumas das malas de viagem, seria um risco de ser calcado a meio da noite por um pesadote, dorminhoco e surpreendido professor, que ainda reservava alguma amargura das voltas à embaixa americana do dia anterior. O certo seria que depois da calcadela ainda levasse com um biqueiro. Não era certamente um bom sono que tinha pela frente se é que chegasse a dormir. Por isso, o melhor foi mesmo bater em retirada e ir procurar um quarto para ele só, o que acabou por servir os meus interesses também.

1 Comments:
Tsing Tsao? Não há Super Bock?
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