Friday, May 26, 2006

Exame de cinturão negro - 20 de Maio, 2006
Aqueles que me conhecem sabem que eu sou um aficionado do Karate de Okinawa-Japão.
Comecei a treinar Goju-Ryu no Colégio do Trancoso em Vila Nova de Gaia com o Mestre Jorge Monteiro (actualmente 6º Dan e instructor chefe da Associação Portuguesa de Okinawa Goju-Ryu Karate-Do, www.apogk.pt) em Julho de 1995, já lá vão 11 anos.....
Dois anos depois (1997), com o cinturão verde, passei um semestre em Bristol-Inglaterra (programa Erasmus) e fiz parte de um clube de karate. Durante esse tempo talvez tenha regredido mais do que progredido.
Voltei ao Ginásio do Trancoso e progredi para cinturão vermelho em 1999. No entanto, o serviço militar interrompeu-me por 4 meses durante os quais o exercicio fisico era outro..... intenso como recruta ... comes e bebes como oficial....
Logo após o serviço militar iniciei o estágio em Silicon Valley-California. Chegado lá como cinturão vermelho, sou despromovido para cinturão branco. O San Mateo Goju Club ensinava Goju-Ryu de uma forma geral mas era muito menos tradicional. Mas não havia outro clube mais semelhante ao Goju-Ryu e por isso juntei-me ao clube, mesmo que tivesse que fazer 50 Kms cada uma das três ou quatro vezes por semana que eu lá ia treinar. No entanto, alguns dos membros seniors não estavam contentes com a forma como o mestre ensinava e intencionavam juntar-se a um clube mais tradicional. O clube quebrou-se, eu juntei-me aos desertores e acabei por treinar durante os restantes 4 meses no relvado do parque enquanto o clube procurava um ginásio. Fui promovido a cinturão roxo que equivalia ao meu cinturão vermelho original.
Finalizado o estágio nos EUA, voltei a meu humilde e querido ginásio do Trancoso em finais de 2000 aonde treinei por mais um ano e meio acabando por obter o cinturão castanho (3º kyu, o primeiro dos três níveis de castanho).
Quiz o destino enviar-me de volta aos EUA. Em Agosto de 2002, iniciei o meu mestrado na Pennsylvania State University. Para mal de mim, a universidade não tinha nenhum clube de Goju-Ryu entre os cerca de 10 clubes de artes marciais à disposição. Num raio de 200 Kms não existe nenhum clube de Goju-Ryu. Iniciei-me então no Shotokan (http://www.clubs.psu.edu/up/shotokan/) que é uma das quatro modalidade relevantes de karate oriundas de Okinawa (Goju-Ryu, Shotokan, Wado-Ryu e Shito-Ryu). No entanto, o sistema é diferente e eu, mais uma vez regressei ao cinturão branco. Quase quatro anos depois e onze anos após ter-me iniciado nas artes marciais, passei o meu primeiro exame de cinturão negro pela ISKF (International Shotokan Karate Federation, www.iskf.com) em frente ao instructor chefe Mestre Okazaki, aluno directo do fundador Sensei Funakoshi.
Ao longo destes onze anos, apercebi-me que o karate não é apenas um desporto ou hobby. Faz parte do meu quoetidiano, da minha rotina de vida. Treino 3 a 4 vezes por semana (nos últimos 2 meses treinei todos os dias) e acho sempre pouco. A obtenção do cinturão negro não é o culminar de um esforço, mas um esforço para iniciar-me na próxima caminhada: procura de mais conhecimento, aperfeitoamento da técnica, ensino de outras pessoas e procurar novos desafios para melhorar-me fisica e psicologicamente.
O facto de ter mudado de sistema de karate deixou de ser uma perturbação para mim. O que é importanto é continuar. O objectivo final do treino a longo termo é comum para todas as artes marciais: polir o caracter dos seus praticantes e evitar a todo o custo a violência.

Thursday, April 13, 2006

Segunda, 12 de Janeiro de 2005
Dormimos quatro horas e fomos acordádos pelo irmão do Jason que nos vinha buscar para levar a visitar o Lion Stone Park, um espaço de lazer de Dalian, que albergava actividades, exposições e tinha incríveis vistas sobre o mar.
Quando saímos de casa, o irmão estava sentado no banco de trás de uma carrinha, enquanto sentado no lugar do condutor estava um empregado do governo que estava encarregue de nos levar a fazer um passeio turístico por Dalian. Mais uma das vantagens de se trabalhar para a alfândega.
O caminho para o parque era tortuoso, longe e cheio de curvas. Preferia ter ficado em casa a dormir mas o irmão queria ser hospitaleiro. O parque era bonito, com carroseis por todo o lado bem integrados com a natureza. Tinha excelentes vistas para o mar e para a baía que se formava no meio do parque. Era bastante grande e levou-nos a manhã toda para o visitar. Tinha um mini oceanário, zoológico e bastantes alusões ao período dos descobrimentos, com várias caravelas e cenas pirataria, etc.

A minha viagem estava a chegar ao fim e tínhamos que voltar a casa para ir buscar a mala e despedir-me do Jason e sua familia. Almocei em casa do Jason algum comida que tínhamos trazido do restaurante na noite anterir e que já tinha comido ao pequeno almoço. Nada como levar com uma morcela e mexilhões ao acordar!

Fui para o aeroporto a tempo e horas para evitar o que nos tinha acontecido três dias antes. As despedidas são sempre difíceis e era realmente difícil agradecer ao Jason e sua familia toda a hospitalidade dada durante os três excelentes dias que tinha passado em Dalian.

Voei sozinho de regresso a Pequim. Desta vez a chegada a Pequim ia ser diferente, sem ninguém comigo e sem ninguém à minha espera como tinha acontecido da primeira vez. Para mais, tinha que procurar um hotel para passar a noite, pois só voava de regresso aos EUA no dia seguinte. Ora, sozinho e sem falar chinês previa que iria ser comidinho nos preços. Mas estava preparado para dar luta.

Chegado ao aeroporto de Pequim, dirigi-me às informações aonde se poderia alugar um quarto de hotel. Pedi pelos preços e não tardou para os preços começarem a ser regateados. Acertou-se as contas e arranjei um hotel de 3 estrelas, não muito longe, com shuttle de ligação. O preço era superior ao que o Jason teria conseguido, mas não era exageradamente alto. Estava disposto a pagar um pouco mais para evitar chatices na minha última noite na China, numa viagem que até então, tinha sido do melhor.

O hotel, na realidade não teria 3 estrelas na classificação a que estou habituado, mas serviu perfeitamente. Ainda meti dois dedos de conversa com os tipos do shuttle mas ninguém percebeu o que o outro dizia.
Pelo aspecto do hotel e por me encontrar sozinho, estava convencido que ainda iria ter alguma visita a meio da noite. No entanto, nem ninguém tocou à porta ou telefonou a oferecer massagens. Comi uma lata de atum e um cachorro que tinha guardado da viagem de Dalian-Pequim, li um bocado e descansei pois teria que acordar cedo no dia seguinte para uma viagem de 18 horas de vôo fora as paragens (4 para Toquio, 12 para Detroit e 2 para State College).

Esta viagem tinha sido superado as minhas espectativas. Houve alturas antes da viagem em que preferiria que não a fosse fazer. Estava com muito que fazer na universidade sobretudo depois de mês e meio fora para o meu casamento e lua-de-mel e com os exames de doutoramento à porta. No entanto, ainda bem que fui. Visitei um país que, à primeira vista, me impressionou pela positiva, visitei um dos mais famosos e fenomenais monumentos à face da terra, experimentei a verdadeira gastronomia chinesa, encontrei-me com bons amigos, convivi com uma familia chinesa durante três dias. Isto tudo adicionado ao que originalmente me tinha levado à China, que culminou num sucesso profissional e académico, tornou esta viagem em algo memorável. Não vejo a hora de voltar à Ásia com a Kristin e por uma estadia mais alongada do que estes 10 dias.

Friday, April 07, 2006

Domingo 11 de Setembro, 2005
Acordámos tarde. Os pais do Jason à muito que estavam a pé.
A mãe do Jason preparou-nos um pequeno almoço com pão chinês, ovos cozidos, peixe e bambu. De início tinha comprado pão de forma e geleia (ao estilo ocidental) a pensar que era isso que eu queria comer. Mas não. Eu queria era a comida chinesa. Portanto, como tipicamente se faz na familia do Jason o pequena almoço consistia do pão, ovo e o resto do jantar do dia anterior.

Comunicar com a familia do Jason era complicado. Eles não sabiam falar inglês, português ou espanhol e eu não sei falar mandarim. Daí que o Jason tinha que traduzir qualquer coisa mais elaborada que eu quisesse transmitir. Aos poucos, fui aprendendo como se dizia as coisas mais básicas como casa de banho, prato, água, para além do obrigado, olá, bom dia, etc. Mas com um vocabulário tão limitado era impossível qualquer conversa.

Saímos com a irmã do Jason que queria levar o filho às aulas de inglês. Reparem que estavamos num Domingo e o rapaz de 9 anos tinha aulas de inglês e violino! Enquanto esperáva-mos que o Jacksson termina-se a aula fomos a um “internet caffee” para checkar os emails. O Jason sentou-se logo ao lado de uma rapariga com a qual começou conversa amena. Mesmo antes de checkar os seus emails já mexia no computador dela..... porra para este gajo, qual Don Juan da Ásia.
Dali fomos almoçar, desta vez a casa do irmão do Jason que vive num complexo de apartamentos de alto nível e com muita boa localização. O complexo inclui courts de tenis e piscina.
O irmão do Jason trabalha na alfândega de Dalian e, como funcionário público da China, tem um ordenado bom, uma vida regalada e assegurada e muitas regalias. Estes empregos são difíceis. No entanto, o pai do Jason trabalhava na alfândega antes de se reformar e ajudou a colocar o seu filho e filha. Tipicamente eles trabalham das 9h00 até às 17h00 sem stresses. Se quiserem dar uma saltada fora podem fazê-lo sem problemas.
O apartamento era enorme com uma sala que deveria ter quase 100 m2! Tinha umas vistas soberbas para o mar.
O almoço foi curto para podermos sair o mais rapidamente possível para visitar mais coisas em Dalian que a familia do Jason queria mostrar-me. Sem dúvida, esta familia não poderia ser mais hospitaleira.

Fomos até à praia. Eu, o Jason, o pai e o irmão. A praia era relativamente pequena, com cerca de um quilómetro de extensão e uns 50 metros de areal. Havia muitas pessoas, tanto na areia como na água. O dia estava bom e quente. A água deveria estar boa também. Infelizmente náo havia trazido os calções de banho e fiquei-me pelas vistas. Mas caminhámos pela areia. As pessoas estavam animadas. Ao pé da água, alguns recém casados tiravam fotos. Vestidos de branco, ambos a noiva e o noivo, os vários casais tiravam fotos que para os ocidentais era inconsebível. Alguns sentavam-se em cadeiras em frente a uma arpa de música ou a um piano! A noivas traziam asas de anjos presas no vestido. Outras arregassaram o vestido e entraram com os pés no mar, para cima de uma pedra para possar para a câmara. Uma delas quase que mergulhava na água. É tradição, que nos casamentos se tirem fotos como se do paraíso se tratasse. Uma amiga minha e o seu noivo, passaram um dia inteiro dentro de um estúdio de fotografias aonde vestiram 10 vestidos e fatos diferentes. As fotos era fabulosas. Eles pareciam que pertenciam a uma familia real. Mas, aquelas fotos na praia parecia coisa melosa demais para para mim. Tentei imaginar-me vestido de branco, sentado numa cadeira branca com os pés na água do mar a tocar violino...... mas não consegui.... mas nunca se sabe.... a vida dá voltas…..
Na praia havia muitos monumentos relacionados com o mar. Várias réplicas de caravelas feitas de madeira, quase reais se não fosse pela sua escala reduzida a meio. Uma enorme tartaruga encontrava-se no meio do areal. Uma enorme cascata de água caía na colina por de trás da estrada de acesso à praia. Gostei muito do ambiente. Houve muito planeamento e cuidado na preparação daquela praia e parecia que os utentes estavam satisfeitos e orgulhosos do resultado.
Da praia fomos jantar a um restaurante. O nível do restaurante era alto. A comida era maravilhosa. Havia vários tipos de peixes, carnes, enchidos, vegetais. Foi um banquete e tanto. Havia tanta comida que era difícil movimentar as travessas. A mesa tinha um tampo rotativo no meio que ia rodando para que servísse-mos das travessas aos poucos para as nossas tijelas. Estas estão geralmente cheias de arroz que se vai comendo aos poucos. Engraçado que tinha a noção que os chineses comiam arroz com abundância. Foi outro mito que vi desmentido, pelo menos em Pequim e Dalian. Come-se o arroz, mas aos poucos e quando se come bem, come-se muito mais carne e peixe do que o arroz. O arroz é um acompanhamento e claro, em regiões mais pobres come-se relativamente mais arroz que em familias abastadas. Por isso, nos restaurantes chineses do acidente dá-se muito arroz, no fundo estão a a dar algo mais barato para encher e poupar o que realmente é tido de bom que é a carne, o peixe e outras iguarias.
Comeu-se bastante. No final havia tanta carapaça de camarão e lagosta nas mesas que parecia mentira.
Quase tudo se come com as mãos e até trouseram algumas luvas plásticas para a mesa que recusámos. As minhas mãos estavam tão besuntadas que tive que usar o lava mãos várias vezes a meio do jantar. A comida estava um espectáculo. A cerveja foi desaparecendo uma a trás da outra a ritmo dos brindes que são muitos. Aprendi que antes de se beber tem-se que brindar (gambé). Mais do que duas goladas sem brinde é considerado má educação. E claro, quando se brinda bota-se abaixo. Daí as cervejas desaparecerem num instante. O que vale é que era fraquinha.

Depois do jantar apanhámos o auto-carro de volta a casa. Foi o primeiro autocarro que usei na China. Era muito baixo e tive que me abaixar para não bater com a cabeça no tecto. Não tinha luzes e só víamos com as luzes que entrava pelos vidros vindas da rua.

Fomos a casa trocar de roupa e prepararmo-nos para voltar a sair à noite. Não estava esperançado que num Domindo à noite fossemos encontrar algum sítio aberto, muito menos animado. Mas estavamos de férias e não tínhamos nada a perder.
Fomos a outro “Bananas” que por voltas das 22h00 estava meio vazio: a pista de dança fechada e as mesas mais ou menos compostas. Estava-se melhor do que eu esperava. O racio rapariga-rapazes tendia para infinito o que era pouco usual no meu passado. Sentámo-nos a uma mesa e pedimos 12 cervejas para os três (o primo do Jason também estava connosco). Ao lado, numa outra mesa, duas meninas olhavam para nós. Já estava eu como o meu western look a atrair olhares. Desta vez acenei mesmo antes delas o que elas gostaram. Acendi um cigarrito e dei umas baforadas. Hmmmmm, parecia que tinha voltado aos tempos de faculdade, Inglaterra, Califórnia. Senti-me bem e rebelde. Bebemos duas cervejolas e fui para a pista mais o Jason para nos juntar a algumas pessoas que estavam já a dançar a um elevado ritmo. Estava a gostar do ambiente asiático, pelo menos daquelas bandas. Os jovens eram super liberais e queriam curtir.
Não tardou para o Jason fazer um “scan” à pista e se juntar a um grupo de meninas. Daí a bocado estava a dançar com uma rapariga. A amiga juntou-se a mim. Parecia estar interessada ou apenas curiosa. Erámos totalmente diferentes. Eu sou alto e ela não deveria ter mais de 1.55m. Ela era nova, se calhar com menos de 18 anos. Se eu lhe dissesse que tinha 30 anos e era casado ela de certeza que saíria dali a correr. Mas deixei-me estar. Estavamos a dançar e eu estava a gostar daquele feeling de me deixar levar pela música teckno. O Jason já tinha uma filosofia mais agressiva. De certo que estava também a esconder a sua idade de 31 anos.
Ao fim de um bocado, notei que a menina com quem dançava estava a aproximar-se muito e decidi bater em retirada. O Jason quase que me fuzilou com o olhar. As coisas estavam a correr-lhe bem e a minha saída do grupo significaria uma menina descalçada que provalvelmente acabaria por sair da pista de dança levando a sua “presa” embora. Como o compreendi. Noutros tempos tive muitas situações dessas aonde uma estratégica combinada e executada a dois resulta muito melhor do que duas em separado. Mas não estava a gostar do aperto e preferi ir beber uma cerveja à mesa aonde se encontrava o primo dele.
Sentei-me, servi-me de mais uma cerveja e acendi outro maroto. As meninas da frente voltaram a reparar em mim. Ao reparar que elas fumavam, decidi oferecer-lhes um cigarro ao qual elas retribuíram com um convite para sentarmo-nos com elas. Carago, noutros tempos (os mais necessitados) estas delicadezas nunca funcionaram.......
Elas eram bem simpáticas e começaram logo a falar connosco. Eu abanei sempre a cabeça a dizer que sim e elas falavam ainda mais. Só passado uns bons minutos é que se deram conta que eu não estava a falar muito e notaram que eu não sabia falar mandarim. Ficaram danadas e recusaram-se a falar em inglês, mesmo sabendo falar um pouco. Queriam que eu aprende-se a falar chinês o que consenti. Ao fim de uns minutos notaram que era inútil sobretudo com a misturada das palavras e música teckno. Mas continuamos a brindar sempre que bebíamos cerveja e isso manteve a amizade.
De repente o Jason passa pela nossa mesa a fumegar em direcção à mesa aonde estávamos. Nem reparou que tinha passado por nós. De certo tinha perdido a rapariga e ia agora despejar em mim..... Quando reparou na mudança deu uma longa olhadela nas novas companhias e não conseguiu evitar uma gargalhada. Pronto, e vem ele.... não demorou 5 minutos para sair com uma das raparigas para a pista de dança. Eu segui-o com a outra. O primo ficou novamente sozinho, mantendo a estratégia de grupo intáctica: a parte dele era a de guardar a mesa das cervejas para nós termos um ponto de descanso e refrescamento!
Na pista a coisa ia mesmo animada. Estava completamente cheia de pessoal no maior desvario. O ritmo da música e algum alcoól sentia-se por todo o lado. Nunca me passou que num Domingo, a noite podesse ser tão animada.
O Jason e a nova amiga dançavam freneticamente e dirigiam-se para o palco. De arrasto eu e a outra menina também fomos. Lançamo-nos lá para cima. Se alguém ainda não tinha reparado em mim, não havia dúvidas que agora toda a gente sabia que havia ali um ocidental. Reparei que não era o único. Havia por ali alguns russos.
O Jason, deixou a linha da frente do palco e escondeu-se a trás para melhor gozar aquele momento. As coisas que este gajo faz..... sstt....sstt não havia necessidade.
A noite no “Bananas” durou mais umas horitas, umas cervejas e os cigarros já estavam a acabar. Parecia irreal. Até custou a sair dali.
No entanto, antes de voltar-mos para casa ainda paramos num restaurante para comer alguma coisa (ao estilo da Relote do Vitor na Foz). Depois fomos para casa. Já passava das quatro da manhã, estava cansado e cheirava a fumo por todos os lados. Tal e qual como antes.
Tomei um banho ao mesmo tempo que descansava sentado na sanita da casa de banho minúscula da cada dos pais do Jason, e depois fui deitar-me sobre o pedregulho de cernas de cavalo.

Sunday, April 02, 2006

Sábado, 10 de Setembro de 2005
Acordámos à hora planeada. Tomámos o pequeno almoço e agarrámos um taxi em direcção ao aeroporto. Desta vez chegámos bem a horas.
Durante o vôo, que durou uma hora e meia, mostraram a série “Gente Gira” que antigamente era série obrigatória em aviões e que agora raras vezes passa. Como antigamente, deu para dar umas boas gargalhadas.
À chegada estavam o irmão e irmã do Jason à nossa espera assim como o seu sobrinho, de nome inglês Jacksson.
Fomos para casa dos pais do Jason aonde nos esperava um almoço preparado pela mãe.
A casa era modesta de uma familia da classe média. Para além dos pais, viviam lá a irmã, o cunhado e o Jacksson.
Depois de tirado os sapatos e de me terem dado uns chinelos 5 números abaixo (os pés dos chinese são geralmente mais pequenos), lá entrei e sentei-me à mesa. A comida estava um espectáculo. A mãe do Jason, com a ajuda de uma empregada de origem japonesa tinham mesmo talento para a cozinha e prepararam vários pratos, que incluíam sobretudo marisco, que em Dalian era abundante e barato.
A seguir ao almoço, saímos para conhecer a outra casa dos pais, uma casa que eles tinham remodelado recentemente e que tinha melhores condições. Era nessa casa que os pais do Jason viviam desde à uma semana atrás e aonde nós iríamos ficar.
Esta nova casa era um espectáculo. Localizada num 2º andar, possuía dois quartos, uma cozinha na marquise, uma casa de banho pequena com chuveiro no meio do espaço, sala de jantar e lavandaria na entrada. Tinha uma arquitectura diferente mas era castiça e tinha acabamentos de luxo elevado. As cama eram de melhor nível com colchões cheios de cerdas de rabo de cavalo..... dura como cornos.... mas camas duras nunca me assustaram pelo contrário..... sou capaz de dormir numa laje de cimento sem problemas.

A seguir fomos visitar a principal praça de Dalian. Localizada junto à costa, esta é a maior praça de toda a Ásia, com um tamanho maior que a área do parque da cidade do Porto. Em frente ao mar estava um monumento que lembrava um livro aberto para onde as pessoas subiam para verem o mar e a praça. A praça tinha vários jardins, com muitas pessoas a passear, a fazer desporto e a voarem papagaios de papel. Dos lados, vários edifícos mostravam uma arquitectura muito variada, com o esplendor de um castelo que tinha sido construído não muito tempo atrás e que agora alojava um museu. O Jason informou que a cidade não permite a construção de novos edifícios ali e outras partes da cidade que não possuem algo de único no seu design para evitar a monotonia arquitectónica de outras cidades. O centro comercial era um coloso de vidro e alguns edifícios pareciam-se com o French Quarter de Nova Orleans!
Nesse fim de semana Dalian era palco de um dos maiors eventos de moda com o Asian Fashion a acontecer precisamente nessa praça. Infelizmente não tínhamos bilhetes para ir.
Alugámos bicicletas e pedalámos ao redor de toda a praça, visitando a marina, vários complexos urbanos, os passeios pedonais, a praia, o livro, o castelo, etc. Fantástico. As pessoas têm uma inclinação para o lazer que desconhecia existir na China.
Para o jantar voltámos à casa antiga dos pais aonde a mâe preparava mais uns pratos novos. Desta vez experimentei alforreca que parecia borracha, mas sabia bem.

À noite saímos todos juntos, incluíndo os pais e a empregada. Fomos a uma praça localizada no meio da cidade aonde havia actividades de lazer. Um grupo de pessoas dançavam ao som de uma música chinesa que saía de uma aparelhagem portátil pousada no chão. Idosos, adultos e jovens dançavam em sintonia numa coreografia combinada. Os passos não eram muito difíceis mas eram rápidos. Algumas das pessoas estavam a suar por todos os lados, sobretudo os jovens que com aquela dança tentavam impressionar as meninas. Eram dez da noite e os jovens dançavam num bailarico de rua para impressionar. Afinal aonde ficam os bares e as discotecas? O Jason respondeu que os bares e discotecas não existiam até à bem pouco tempo e isto era a forma das pessoas se divirtirem! Bom, lá fomos para o meio.... e claro não impressionamos ninguém.....
No meio da praça um grupo de jovens patinavam com uns patins de duas rodas lado a lado na zona do calcanhar. Ao rodar as rodas emitiam luzes o que dava um efeito engraçado à noite. No chão várias garrafas de água estavam dispostas em linha para os desafiar nas suas chicanes. Fui desafiado a experimentar e não pude negar. Após alguns minutos estava eu... na mesma.... aquilo não é fácil.

Um bom bocado depois, o grupo separou-se. Os mais idosos e novitos foram para casa. Os outros foram para a discoteca. Ahhhh, afinal sempre há discotecas e bares....
Num país em tanta mudança como a China os bares começam a aparecer nas cidades mais dinâmicas. Dalian é uma cidade virada para o lazer e com uma população ainda muito jovem. As pessoas vestem-se bem, tratam-se bem, gostam de sair e divertirem-se. Sair à noite para um bar e discoteca, mesmo para as raparigas, já não tem a conotação negativa que dão em outras cidades da China. Dalian recebe muitos turistas, vindos de outras partes da China (mas sobretudo de Pequim que é relativamente perto), da Coreia e da Rússia.

A discoteca “Bananas” estava cheia. A proporção rapazes-raparigas pendia para o feminino, o que admirou-me. A pista estava cheia. Haviam grupos de pessoas a fazerem shots e a divirtirem-se à brava. Não faltou muito para estarmos na pista.
As pessoas olhavam muito para mim, pois era um dos poucos não-asiático na pista de dança. Para ajudar a ser notado eu era uns centímetros mais alto que a média. No início sentí-me pouco à vontade, mas essa sensação desbateu-se à medida que a noite avançava.
A música incluía um bocado de tudo: música chinesa, inglesa, americana, pop, rock, teckno. O espirito das pessoas era bestial com todas as pessoas a dançar como se fosse a última vez, sem qualquer preconceitos. Alguns subiram para as colunas e palco.
Uma rapariga começa-me a acenar para eu chegar perto dela. Eu achei que não era nada comigo e não liguei. Ela insistiu e agora fingi que não era nada comigo. À terceira, acenei-lhe de volta e ela sorriu. Bom..... era mesmo comigo que ela se estava a meter. Continuei com a minha dança com o grupo com que estava. Nisto um rapaz agarrou-a por trás e eles dançaram juntos...... como é? Afinal tinhas namorado e estavas a acenar-me..... menina marota..... não devias fazer isso pensei..... qual quê? Mesmo com o namorado ela continuava a acenar-me para chegar perto dela..... cum carago...... estas chinesas são cá umas maradas......!
No final da noite estava satisfeito. Tinha dançado e divirtido-me como já não fazia a algum tempo, sem grandes planos e sem preconceitos.

Friday, March 24, 2006

Sexta-feira, 09 de Setembro de 2005
Quando acordei, já o professor estava a sair. Nem me dei conta de ele ter acordado. O Bin, estava meio a dormir meio acordado. Claramente, a manhã não era o forte dele. Preparámo-nos para a as nossas apresentações. A do Bin era de manhã enquanto a minha tinha sido deixada para as últimas, durante a tarde. Depois do pequeno almoço e sem corridas ou caminhadas, fomos para a sessão.
A apresentação do Bin foi relaxada e bem cronometrada. No entanto, antes de começar ele havia-me mostrado os slides que tinha, deixando-me meio perplexo, pois 70% deles eram cópias de slides que eu tinha apresentado no passado, e alguns bem parecidos com aqueles que eu iria apresentar ali a poucas horas. Se as nossas sessões calhassem na mesma sala ia dar barraca. Não me mostrei incomodado, mas ficou registado. Ali não era a hora nem o momento para esclarecimentos.
Depois da sua apresentação levantei-me e vim cá fora. Encontrei o professor em conversa com algumas das pessoas mais conceituadas na minha área de investigação. Não demorei muito e mandei-me lá para o meio. Não tinha nada a perder e tinha algo a ganhar. Não demorou muito a conversa caiu para o meu lado e partilhei algum do meu conhecimento. Não tardou estavamos a almoçar juntos e a trocar cartões.
Depois de vestido o fato, lá me dirigi a passos largos para a minha apresentação. Acho que me saí bem. Gostaria de ter mais tempo. 10 minutos não é muito para se falar de algo tão específico e novo. No final ninguém tinha adormecido e alguns assistentes fizeram perguntas, o que me deixou tranquilo. A pior coisa que pode acontecer é ninguém fazer perguntas.
Sentei-me ainda meio nervoso. Estava morto por aquilo acabar. Tinha sido uma conferência com altos e baixos, com um início frustante, melhorias no meio e com contactos bem importantes. Agora, depois da apresentação senti-me com a missão comprida. Tinha retirado da conferência bem mais do que imaginava no início da semana e sentia-me satisfeito por isso. Agora, só queria fazer o resto da mala e partir para Dalian com o Jason, para umas completamente relaxadas férias.
Estava a tentar escapar da cerimónia de encerramento da conferência, mas mais uma vez, o professor convenceu-me a ir. Comecei a perceber porque ele tinha insistido tanto em que ficásse-mos todos no mesmo quarto, o que tinha deixádo a mim e ao Bin completamente atordoados. “Carago, o professor deve ser mesmo forreta. Os quartos são para dois e ele quer por lá três!!”. Certamente que não terá sido por dinheiro. Acho que a ideia era manter o grupo unido, coeso. Dizer que andava a controlar seria exagerado. Mas, manteve o grupo da PSU junto. Havia ali uma identificação a marcar e, se era o que ele tinha em mente, fêz-lo muito bem feito e com bons resultados. Apesar das minhas preocupações iniciais de ter o professor por perto, ele veio a revelar-se ser uma boa companhia, relaxado e aventureiro quanto baste. Olhando para trás, fico contente de ele estar por ali.
Mais uma vez o professor tinha razão em arrastar-me para esta cerimónia. Se no início foi um bocado seca, a coisa tornou-se interessante quando um nome conhecido foi chamado ao palco para apresentar a próxima grande conferència em QAI: Healthy Buildings 2006 a realizar-se em Lisboa (http://www.hb2006.org/). O nome era nem mais nem menos que um professor que tive na FEUP. Mais que professor, ele foi meu supervisor do projecto de fim de curso, meu primeiro chefe, e referência da minha candidatura ao mestrado na PSU. Ali, em frente a quase mil pessoas, estava o duplamente ex-secretário geral da direcção geral da energia, o Dr. Oliveira Fernandes.
O OF (como era conhecido na universidade) deu um discurso de 30 minutos com um inglês impecável, muitas piadas e deixou o pessoal todo a bater palmas. Estranho, na altura da universidade, na única aula que assisti dele (uma aula de Transferencia de Calor) quase que dormi. Mas, desta vez não. O homem esteve mesmo bem. Falou de Portugal e convidou o pessoal todo a aparecer pela nossa terra em Junho do próximo ano (2006).
Bom, depois de muitas palmas, toca a fazer o resto da mala. Parecia que não ia caber tudo. Tinha trazido muitos livros para estudar. Na conferência deram mais uns livros. Eu tinha comprado algumas prendas e agora tinha que enfiar tudo na mala. Para piorar, tinha uma caixa gigante com uma máscara de porcelana lá dentro que precisava de cuidados especiais. Não cabia na mala e não podia simplesmente atirar com a porcelana para o meio do resto.

Tinha combinado encontrar-me com o Jason às 20h45 no lobby do hotel e ainda tinha muito tempo. Por isso fui jantar com o professor, o Bin e o Alex. O Jason preferiu sair com a amiga de BMW que parecia que lhe queria mostrar a sua casa outra vez naquela tarde. Avisei-o para não se atrasar.
Fomos de novo para a zona comercial ali perto para procurar um restaurante. O Bin sugeriu um em particular que servia pratos típicos da sua terra (ChongQing). Eu fiquei de pé atrás porque já conhecia as doses de dinamite picante que a comida tem. Numa das ocasiões que passei por casa do Bin em State College ele serviu um jantar típico, que naquele dia tinha preparado menos picante por saber que lá ia. Mas aquilo era capaz de revirar com um mexicano ou tailandês.
Mas, a pedido dos outros lá fomos. O prato chama-se Hot Pot. No meio das mesas e a um palmo de profundidade existe uma disco eléctrico aonde pousa-se uma panela grande com uma divisão no meio. Um dos lados, vem cheio com um molho brando, o outro um cacho de piripiris mergulhados num molho vermelho fogo. Não foi preciso provar para saber qual dos dois ia-me fazer explodir.

A comida vem para a mesa crua. Cabe a nós mergulharmos o que queremos na panela e servir-nos quando queremos. O lume é posto bem alto e os molhos estão constantemente a ferver, libertando toneladas de vapor que enche o restaurante de uma humidade típica dos trópicos. O calor é imenso. Vinte outras mesas ali ao lado fumegam e as pessoas suam. Já não conseguia distinguir o que me fazia suar tanto, se o vapor se o molho “inferno” que me atrevi a experimentar. Num repente olho para os lados e vejo alguns clientes a tirar as camisolas e a comer de tronco nu. Que lindo e que rica ideia. Num piscar de olhos estou eu no mesmo estado. “Que alívio”. Mesmo assim, tive que pedir à empregada um prato limpo, porque até os restos do molho picante ameaçavam acabar com a minha voz que já esganissava.
Estava na hora de sair para regressar ao hotel. Vesti a t-shirt e bati em retirada sem, no entanto, conseguir disfarçar algum embaraço ao ver o resto do grupo a comer os piripiris à dentada.
Fui rapidinho para o hotel, busquei a mala ao quarto e esperei no lobby pelo Jason. Passava um pouco da hora combinada e ambos estavamos atrasados. Já desconfiava que o Jason iria chegar atrasado. Ele não costuma chegar a horas a lado nenhum especialmente se antes está com uma rapariga a apaparicar-lhe.
Esperei quase 45 minutos e comecei a ficar preocupado. O vôo saía daí a hora e meia e ainda tinha 30 minutos de táxi do hotel até ao aeroporto. Achei melhor ir ao quarto verificar se não existiria alguma mensagem no telefone. Tinha acertado. O Jason estava atrasado e encravado no trânsito. Pedia-me para ir imediatamente para o aeroporto sem mais demoras. Liguei-lhe de volta para confirmar o plano.
Corri para a porta do hotel e agarrei o primeiro taxi que me apareceu, desta vez, sem preocupação de ser um taxi moderno ao não. Calhou-me um dos antigos. No momento serviu bem.
No caminho comecei a pensar no trânsito que o Jason referiu. Ali na autoestrada, àquela hora, havia muito poucos carros e o taxi rolava a mais de 100 Km/h. A não ser que o Jason estivesse noutra parte da cidade ele não deveria estar encravacado no trânsito como tinha dito. Deve ser mais umas das histórias típicas dele em que o que fica encravacado não é realmente o táxi.
Da forma como circulava iria chegar ao aeroporto a tempo. Precisávamos chegar 30 minutos antes da saída do vôo para fazer o check-in.
O taxista perguntou-me em inglês qual o terminal que eu queria. Respondi-lhe que ia para Dalian e ele acenou que sabia qual era o terminal.
Chegando ao terminal telefonei de imediato ao Jason, que estava a 5 minutos de chegar. Esperei uns dez minutos e ainda não o via. Faltavam 20 minutos para as 22h30. Olhei para os monitores de vôos e não conseguia encontrar o de Dalian. Os vôos estavam escritos em Chinês e em Inglês e repeti a busca sem sucesso. Dirigi-me às informações e perguntei de onde saía os vôo para Dalian e responderam que era ali mesmo. Tinha que fazer o check-in primeiro. Estava preocupado. Telefonei ao Jason outra vez que me diz que já estava no terminal junto ao check-in. Estranhei..... será que chegou no momento em que eu me dirigi ao telefone público localizado no segundo piso. Desci para verificar e não o vi. Voltei a ligar e ficou claro que um de nós estava no terminal errado. Passava das 22h20 e desci a correr às informações, com a caixa da máscara de porcelana aos saltos, para esclarecer o porque de o vôo para Dalian não estar a ser anunciado nos monitores e afinal aonde eu me deveria dirigir. Cada pergunta que eu fazia era repetida pela ajudante como que para ter a certeza que tinha percebido a minha pergunta. As respostas, essas, nem sempre correspondiam à pergunta feita. A ajudante fazia os possíveis para entender mas o Inglês não era claramente o seu forte. Pedi para ligar-me ao Jason empurrando o papel aonde tinha anotado o seu nome, mas o sistema de comunicaçãoes não permitia fazer chamadas externas. Insisti que não poderia haver muitos vôos a sair para Dalian às 23h00 daquele aeroporto e portanto bastava fazer uma busca no computador para saber de que terminal saía. A ajudante repetiu a pergunta. E calmamente, sem olhar para o computador disse que não era ali, era no terminal que ficava do lado oposto ao parque de estacionamento. Pareceu-me que sabia a resposta o tempo todo mas estava à espera do último momento..... quando agradeci aconselhou-me a correr se queria chegar a tempo. Aquela caixa com a máscara de porcelana dentro estava a querer revelar-se útil..... “vê lá se queres ficar com cara de cantora de ópera de Pequim?
Mas não havia tempo para amenidades e tive que dar à sola a toda a velocidade. Nem sequer desperdicei tempo a olhar as horas. Deveriam ser bem perto das 22h30 e agora só restava ter esperanças de chegar a tempo ao terminal. Porque raio não me disseram logo o terminal correcto quando perguntei a primeira vez???
Cheguei ao terminal e encontrei o Jason a bufar por todos os lados. Exigiu de imediato o meu passport e correu para o check-in empurrando para o lado quem lá estava! Eu, encostei-me ao balcão a pingar de suor e a tentar respirar o máximo que podia. Olhei para o chão e reparei que tinha as sapatilhas desatacadas. Ouço as vozes vindas do bancão, mas não me preocupo. Não entendo o que estão a dizer e o Jason está a tratar de tudo para nos pôr naquele avião. Não deve ser por 2 minutos que nos vão impedir de prosseguir com a nossa viagem.
As vozes, no entanto, começaram a subir de tom e eu levanto a cabeça para ver. Estavam todos de mau humor. O Jason e mais dois clientes descordavam com o procedimento tomado pela ajudante do check-in. O restante pessoal do check-in arrumava os balcões e encerravam os computadores. Afinal, as coisas não estavam bem. O Jason, claramente a ficar irritado mas sem perder o control, pedia explicações, dava sugestões e exigia que o deixássem embarcar porque ainda havia tempo. A ajudante sem perder a compostura negava o acesso firmemente. Ainda me meti na conversa, culpando as informações daquele aeroporto pelo nosso atrasado. Mas nada mudava a situação. Os computadores tinham sido todos desligados e as pessoas estava a ir-se embora. Olhámos um para o outro em discrédito. A minha respiração que antes não chegava para o esforço, estava agora abaixo dos mínimos.
Decidimos aceitar a boleia do primo do Jason para procurar um hotel que não fosse muito longe dali, sem no entanto, ficar num hotel do próprio aeroporto que eram bem mais caros. Já no carro, queria matar o Jason. Porque raio não tinha ele ido ao hotel buscar-me como combinado? Certamente que o taxista tinha-se entendido melhor com ele e deixado-nos no terminal certo. A resposta não veio, mas pelo ar matreiro percebi que as minhas suspeitas estavam certas. Macaco..... não satisfeito ainda, queria agora sair para a noite. Mesmo vendo-me a bocejar telefona ao Alex para o convidar a sair. Por sorte o Alex não podia. Tinha-mos um vôo às 10h00 do dia seguinte e se queríamos agarrar esse teriamos que nos levantar às 7h30am. Tinha tido um dia longo, acordado cedo, ido a sessões, apresentado o meu trabalho, experimentado comida do diabo e corrido de um lado a outro do estacionamento exterior do aeroporto internacional de Pequim. O que queria agora era uma cama.

Ainda demorámos uns 30 minutos para encontrar o primeiro hotel que nos interessasse. Dirigimo-nos ao interior e recepcionista negou-me a estadia. O hotel não podia alojar estrangeiros. Fiquei desiludido e até meio perturbado. Nunca tinha sido negado a entrada em lado nenhum tirando o Via Rápida. Não tratava-se de descriminação e eu sabia-o. Já tinha lido que o governo não permitia que certos hoteis aceitassem estrangeiro por não oferecerem condições mínimas. A escala de classificação na China é um bocado diferente e um ocidental teria que retirar uma ou duas estrelas da classificação para achar o correspondente ao seu país. Muitos hoteis, sobretudo nas grande cidades, tinham evoluído no sentido de equilibrar a classificação, mas aquele ali ainda não. A senhora pedia desculpas mas se me deixasse ficar e um fiscal aparecesse estaria num sarilho. Compreendi, mas ainda sentia como que se tivesse levado com um biqueiro no traseiro. Engraçado, ao lado do hotel existia um bar ocidental aonde alguns jovens jogavam bilhar debaixo do olho de algumas meninas asiáticas.
Tivemos mais sorte na segunda tentativa. Depois de ir verificar, o Jason regressou ao carro e tranquilizou-me que neste poderia ficar. Bebi 3 copos de água e fui direitinho para a cama.

Saturday, March 18, 2006

Quinta-feira, 08 de Setembro de 2005
Acordei tarde e o professor já tinha saído para a sua caminhada. Quando ele chegou estava eu a preparar-me para dar uma corrida. Mesmo sendo mais tarde que o costume eu não precisava de estar na conferência tão cedo porque não havia nada naquela manhã que me interessasse muito. Mesmo assim dei um pulo a uma sessões.
Nessa manhã andava a matutar se iria a Dalian ou não. Era uma daquelas oportunidades que não voltaria a aparecer: ter um amigo chinês em férias a caminho da sua cidade e experimentar um pouco da cultura chinesa parecia ser uma oportunidade única que certamente não irá aparecer novamente. Telefonei ao Jason, mas ele ainda deveria estar a dormir. Assisti a outra sessão e voltei a telefonar. Já passava das 11h00 e ele deveria estar acordado. E estava.... meio acordado. Aconselhei-me sobre a viagem e acabei por me convencer que era melhor mesmo ir a Dalian e adiar a minha viagem de regresso por três dias. Marquei encontrar-me com o Jason para almoçar no hotel. Ele não estava longe. Na noite anterior não tinha ficado no mesmo hotel, mas procurou outro nas redondezas que fosse mais barato.

Durante o almoço falamos dos nossos planos para voar a Dalian. Ele iria comprar os bilhetes essa tarde.
Em Pequim nada estava resolvido em relação ao visto de regresso. Quando o Alex entrou na embaixada dos EUA no dia anterior entre as 15h00 e as 17h00 como haviam comunicado ao professor, a mensagem foi completamente diferente. A pessoa com quem falou nunca tinha ouvido falar dessa sessão especial para chineses que comparecessem com amigos americanos. Mais a mais, a única maneira era mesmo através de marcação de entrevista. Nesta altura, só lhe restava a marcação para dali a duas semanas e não tinha mesmo nada a perder em finalmente ir visitar a sua familia. Quanto mais cedo melhor. Resolvemos sair de Pequim logo que a conferência terminasse, ou seja, no dia seguinte à noite no último vôo às 22h00. A sua familia iria-nos esperar ao aeroporto pelo tão aguardado Jason.

Após o almoço encontrámo-nos com o professor para irmos visitar a cidade proibida. Estava ansioso por visitar este impressionante complexo de monumentos que tinha alojado 600 anos de emperadores chineses da dinastia Ming e Qing. Apanhámos um taxi no hotel. Nunca nos era possível agarrar o primeiro taxi que nos aparecia. Em Pequim existe dois tipos de taxis. Os antigos, geralmente citroen xantia, são pequenos, estão bem batidos, com os estofos bem gastos e não possuem ar condicionado. Os novos, que começaram a ser introduzidos na cidade no âmbito da preparação da cidade para os Jogos Olímpicos de 2008, são uns mais modernos Hiundais, equipados com ar condicionado e ecrâns LCD nos assentos de trás. Sempre que aparecia um dos taxis antigos recusávamos entrar e esperávamos por outro. É esquisito negar um taxi. Nunca tinha feito e acho que nunca teria feito se o Jason não o fizesse com a maior das naturalidades. Se não gostas, não aceites. Dali para a frente estava determinado a andar de taxi só se fosse no estiloso Hiundai. Lembrei-me então quanto relativo as coisas são. Em Portugal ninguém recebe um Hiundai de bons modos. Até os autocarros são de marca mais conceituada. Um taxi é um Mercedes e ponto final.

O Jason não tinha tempo para nos acompanhar na nossa visita aos palácios da cidade proibida. Ele saiu de taxi connosco na entrada norte da cidade mas dirigiu-se para o centro comercial para comprar as nossas passagens aérias.
A cidade proibída é de pasmar. Já eu estava tolo da extensão e da espessura do muro exterior quando, depois de entrar, reparo que aquilo era só a primeira protecção.... ainda há um segundo muro..... não admitra que chamem a isto proibido. Depois de entrarmos aparecem palácios atrás de palácios. E quando se vê o primeiro, dada a sua grandiosidade e beleza, um pensa que está perante a casa do emperador. Mas quantos palácios passei aonde a placa descrevia que o palácio tinha sido usado por um dos emperadores para realizar uma festa em homenagem de....., ou o emperador trocava a roupa neste palácio antes de......, ou o professor de filosofia viveu neste.... mas que raio.... aonde fica afinal a casa principal?..... mas quanto mais se caminha para o centro da cidade maior a grandiosidade dos palácios, e finalmente chega-se ao capoeiro principal que é deslumbrante e todo ornamentado.

A cidade proibida começou a ser construída por volta de 1300 e terá ocupado mais de um milhão de trabalhadores e cem mil artesões, quase toda a classe trabalhadora de Pequim. Durante os séculos e dinastias evoluiu, mas a arquitectura inicial ficou sempre marcada. O eixo principal da cidade (norte-sul) está ladeado de 12 palácios, seis na parte oeste e seis na parte este aonde o emperador “guardava” as suas comcubinas. Estas chegavam a ser perto de 100. Ao mesmo tempo, viviam nesses palácios cerca de 3000 meninas bonitas chegando a serem 9000 no tempo de um certo emperador. Façam as contas. Se um emperador tivesse com uma menina diferente todas as noites levaria quase 25 anos a fazer a ronda, sem contar com os feriados e as noites perdidas a explicar às suas cem mulheres (concubinas) o porquê de ter chegado atrasado na noite anterior. Notem que a meio da ronda provavelmente o emperador quereria renovar o stock porque, com tamanha espera as meninas deixavam de serem tão bonitas quanto eram no inicio da ronda. Ora, se se renova ao fim de, por exemplo, dez anos, e se leva com mais 9000 raparigas bonitas então, parece-me a mim, que o emperador estava perante uma missão impossível, se não quisesse fazer horas extras.
Não tivemos tempo de ver muito. Aquela cidade é suficientemente grande e fantástica para se dedicar uma semana inteira. Como estavamos longe de ver tudo, decidimos que iriamos mesmo passar de rapidinho pelos palácios e seguir puramente a direcção sul, no sentido do portão de saída para a praça de Tiananmen.

Cá fora, e virado para a praça estava a tribuna, ainda parte da cidade proibída, de onde os oficiais do governo assistem às paradas militares. Estre a cidade e a praça há uma via de um só sentido com, talvez, dez faixas de rodagem.... aqueles tanques soviéticos deviam ser mesmo largos. Era, obviamente impossível atravessar a estrada. Para isso, era preciso passar por um túnel.
Já na praça de Tiananmen, sentia-se bem a grandiosidade daquela praça. De um lado a cidade proibida, do outro o mausoleu do Mao Zedong e dos lados alguns edificios governamentais construídos ao estilo soviético, importação lógica do país que serviu de inspiração para tantos anos de governação comunista.
Tiananmem significa tranquilidade. No meio da praça, longe das 10 faixas de rodagem que ladeam o espaço e ignorando as centenas de turistas que por ali passeam consegue-se sentir alguma tranquilidade. No meio existe um memorial às pessoas da China, lembrando que é o povo que serve de coluna pilar à República Popular da China. O monumento é constituído por uma agulha central com o formato de obelisco e um patamar a todo o redor que era acessível por quatro conjunto de escadas distribuídas geometricamente. No entanto, vários seguranças protegiam o memorial e ninguém podia subir os cerca de 10 degraus para o patamar. Ali estava o monumento das pessoas da China, a ser vigiado para que ninguém o tocasse. Bem ao estilo do protesto de 1989 que resultou na morte de 100 (oficialmente) a milhares (estimativas) de estudantes, ali estava um exemplo dos muitos contrasenso da China: o do povo ser forçosamente livre de seguir os ideais do governo.
Na parte sul da praça estava o mausoleu de Mao Zedong, aonde o seu corpo estava embalssemado para exposição. Um bocado arrepiante mas lá estava o corpo do homem que moveu milhões de pessoas e uniu o país durante a sua revolta e governação, e que continua a ser a pessoa mais popular de toda a China. Centenas de pessoas esperavam em fila para comprar flores e e para aguardar a sua entrada.
Não são permitidas fotos no interior. As pessoas passam todas em fila perante a câmara ardente aonde o seu corpo encontra-se deitado dentro do caixão. As luzes iluminam a sua cara que, desprovida de qualquer circulação por 2 décadas, reflecte luz como um tampo de mármore branco polido.

Depois desta visita queriamos ver o Teatro Nacional que está em construção. A maquet to teatro que tinha visto no programa da conferência era fantástico. Uma semi-esfera sobre um lago. Parecia irreal. O edifício não parecia ter qualquer esquina. A parte central era envidraçado e a entrada era feita por um túnel por baixo do lago. Na maquet, o edifício parecia uma bolha de ar em flutuação. Claro que queria ir ver tamanha obra de arquitectura.
No entanto, não tinha bem a certeza aonde o edifício ficava e começamos a caminhar para sudoeste da praça Tiananmen como nos haviam indicado. Durante um bom bocado não dávamos com o teatro e tive que começar a perguntar. Após umas dez tentativas acabei por desistir porque não consegui falar com ninguém que entende-se inglês ou português. O professor, esse andava à distância. Parecia que estava meio envergonhado por pensar que os Chineses de alguma forma assustavam-se quando eu me dirigia a eles. Alguns, é verdade, hesitavam. De qualquer modo eu seu um gajo meio assustador! Mas a maioria não se assustava e alguns até acabariam por rir. Enfim, o professor vê as coisas de acordo com a cultura americana onde ninguém pergunta na rua aonde fica o quê, sem antes comprar meia dúzia de guias turistas, 2 mapas e direcções para o destino tiradas da internet. Eu, e como a maioria das pessoas neste mundo, preferimos a aproximação das pessoas locais, mesmo que não falemos a língua. O contacto com os locais enriquece a nossa experiência lá fora.
Bom, sem jeito de obter ajuda continuamos a caminhar e seguimos os nossos instintos. Depois de dois grandes quarteirões conseguímos ver o topo do teatro. Redondo, claro, não tinha como enganar. Para lá chegar era preciso ir dar uma volta ao quarteirão, a não ser que cortássemos numa viela de aspecto duvidoso e que assustou o professor. “Anda carago”, lá tive que lhe dizer em Português para ele me entender. “Bora lá, oh cagão”. Finalmente cedeu. Mas mal posémos o pé na viela, notei logo que o professor nunca tinha deixado a cadeira do escritório em muitos anos. “Que raio de pincél me saíste. Havia de meter-te em Caracas sozinho por duas noites e ias ver o que era bom”.
Ali estava uma rua que deveria representar toda a China de algumas décadas atrás.... se calhar menos. Estranhei mesmo a existência de tão estreita viela tão perto das grandes avenidas da cidade e da principal praça de Pequim. Imagino que antes da remodelação dos últimos 50 anos que a cidade deveria ser constituída de estreitas vielas como aquela, com casas de um ou dois andares coladas umas às outras. Havia lojas de rua aonde se comprava um bocado de tudo. A viela era relativamente suja, com vários amontoados de sucata e águas sujas a correr junto ao passeio. Àquela hora já se via algumas donas de casa a acender o lume à porta da casa ou a tomar um banho de balde depois de um dia de trabalho. Portanto, ali naquela rua via-se o passado de Pequim e o ainda presente da maioria da população chinesa. Apesar da relativa pobreza, nunca senti-me ameaçado. As pessoas pareciam humildes e e estas sim olhavam-nos com curiosidade e surpresas enquanto caminhá-mos. De certo que não passa ali muitos turistas.

O teatro tinha bem melhor aspecto na foto. O cenário ali, era outro: o da construção. O edifício não estava pronto, faltando, ao olhar exterior, apenas parte do telhado. Era grande, imponente, bem ao estilo monumental Chinês a que me vinha habituando. No entanto tudo à volta era pura construção. Camiões, gruas, máquinaria, etc. Nada de lago, entrada subterrânea, arvoredo, etc., para embelezar o cenário. Talvez daí a um ano a obra estivesse completa.
Já passava das 17h30 e decidimos agarrar um táxi de regresso ao hotel. No entanto, depois de acenar a uns duzentos taxis estavamos a ficar aborrecidos com a situação. A maioria dos taxis àquela hora e naquela parte da cidade estavam ocupados, mas já tinha passado alguns que estavam vazios e não pararam. Por sorte, uma rapariga simpática tirou algum do seu tempo para nos explicar que junto à praça de Tiananmen os taxistas estão proíbidos de parar para recolher pessoas para não causar congestionamento. Portanto, o melhor era ir para uma das transversais. Assim o fizemos e logo logo estavamos em andamento.
Quando cheguei ao hotel comecei a preparar a fazer a mala o melhor que podia para estar pronto a sair do hotel no dia seguinte. O fato teve que ficar de fora porque ainda tinha a apresentação para fazer no dia seguinte. Não gosto nada das coisas para a última. Tinha preferido ter feito a apresentação logo no primeiro dia e estar descontraído o resto do tempo. Mas, acho que talvez até foi pelo melhor. Se andasse mais descontraído era natural que nunda entrasse em mais nenhuma sessão da conferência depois da desilusão das primeiras sessões que assisti no primeiro dia.

O telefone do quarto tocou e a voz familiar de um amigo da universidade ouviu-se do outro lado. Era o Li, um cidadão chinês, que tirou uma especialização em AVAC na PSU. Depois de concluir a especialização em um ano, procurou emprego nos EUA que lhe desse a oportunidade de estar ligado à China. E teve sorte. Conseguiu um emprego na Florida numa empresa que planeia abrir escritório em Xangai ou Pequim. Portanto, o Li passa a vida de um lado para o outro. Vive, oficialmente, em Orlando com a sua esposa e espera que em breve se mudem para a China com um salário americano. Que mais se pode querer.
O Li não estava sozinho. Vinha acompanhado do Ruigang, outro Chinês que como ele tinha feito a especialiazação em AVAC. O Ruigang também queria um emprego americano com localização na China. No entanto, não teve a mesma sorte e acabou por regressar a Xangai, aonde trabalha numa das maiores empresas de projectos para edifícios.
Já não via estes dois amigos à mais de um ano e foi com bastante alegria que desci ao lobby do hotel para os ver. Esta viagem estava repleta de surpresas e demais coincidências. Primeiro o Alex, o americano que um mês antes revirava com toda a força o terreno da nossa casa. Depois, o Jason, que uma semana antes concluía uma série de projectos e decidia tirar umas pequenas férias. Agora, o Li que calhava de passar em Pequim numa das suas típicas viagens de Orlando à China e o Ruigang, que tinha vindo de Xangai a Pequim parcialmente a trabalho, parcialmente a lazer. Enfim, parece que os astros alinharam todos naquela semana.
Os dois amigos estavam de saúde e bem contentes com a sua vida. Achei que estavam bem melhor do que eu. Quando me imagino-me no laboratório a esmigalhar baratas e pêlo de cão e vejo estes professionais a abrir escritórios, acho que ando a perder grandes oportunidades. Mas, para eles nem pensar. Estavam todos orgulhosos por eu ter continuado com o doutoramento e que logo logo veria os resultados. Estar de fora tem dessas coisas: uma visão bem afastada e geral dos beneficios da educação e que, geralmente, vem-se a verificar. No entanto, para aquele(a) que vive o evento com tanta aproximação, esses benefícios nunca parecem ser tão óbvios. Vamos ter esperança.....
Não tardou muito, a Yazhuo apareceu para jantar. Infelizmente, o Li e o Ruigang tinham outros compromissos e tiveram que ir embora.
Eu, a Yazhuo e o Bin fomos jantar a um restaurante ali próximo, mesmo no meio da zona comercial. O restaurante tinha dois pisos e estava num edifício envidraçado. O interior via-se todo de fora e devido aos aquários, luzes, etc. .... dava um cenário mais tipico de um centro comercial. A comida era escolhida junto aos aquários. Eles retiravam dos aquários aquilo que a gente apontasse. Tinha lá quase de tudo. Algumas coisas nem imaginava o que fosse. A Yazhuo, mais experiente, fez as escolhas enquanto eu tirava imensas fotos.
O jantar, estava mais uma vez uma delícia. O tempo que esperamos pelo jantar não foi muito, especialmente tendo em conta que os peixes não estavam préviamente preparados. O Alex apareceu e juntou-se ao gang. Ele adorou as escolhas da comida. Quem não?
Depois do jantar regressei ao hotel para dormir uma boa soneca. Estava com o estômago meio cheio de boa comida e cerveja Tsing Tsao.

Sunday, March 12, 2006

Quarta-feira, 07 de Setembro de 2005
Já tinha-se tornado rotina acordar cedo e dar uma volta a pé. Eu estava a acordar naturalmente mais cedo que o normal. Seria normal também continuar deitado mesmo que não tivesse sono. Mas o professor, já estava ao computador a ver os emails à mais de meia hora quando eu finalmente acordava e mal percentia que eu tinha aberto os olhos começava a fazer os seus exercicios de aquecimento. Acho que ele andava entusiasmado por poder ter algum tempo e companhia para dar umas longas caminhadas e corridas que, a julgar pelo tamanho da sua barriga, a vida na universidade não lhe permitia. Não me dava chance de recusar e lá tinha eu que calçar as sapatilhas. Mas as caminhadas eram sempre refrescantes. Quando voltava ao quarto depois de uma caminhada de 3 Kms, tinha de certo uma desculpa para abusar daquela sala de iguarias internacionais que era a sala dos pequenos almoços.
Depois disso, quase sempre separava-me do professor porque tínhamos interesses diferentes nas sessões que queríamos assistir. Ele sempre interessado em sistemas de limpeza de biocontaminantes e eu mais interessado em levantamento de particulas do chão quando as pessoas caminham e de certa forma interessado em voltar ao quarto aonde queria estudar para o meu exame de doutoramento, e começar-me a preparar seriamente para a minha apresentação a realizar-se na sexta-feira. Tinha ainda que decidir se iria ou não com o Jason visitar a sua cidade de Dalian e a sua familia. Naquele momento estava bem inclinado em aceitar, tanto mais que o Jason me tinha dito que o preço de uma passagem de ida e volta rondava os $100, cerca de 80 Euros. Depois, que eu não precisava de passar mais do que 3 dias por lá. O preço e a duração começavam a parecer-me mais razoáveis do que nunca.

Nesse dia durante uma apresentação, fiz a minha primeira intervenção com algumas perguntas ao apresentador. Em outras conferências em que tinha estado, sempre tive uma pergunta para fazer mas nunca a certeza do que do que iria perguntar. Por isso, sempre ponderei bem o beneficio de esclarecer um dúvida e o vechame de uma pergunta inconveniente. Mas, acho que depois de alguns anos envolvidos na investigação, ganhei o à vontade e confiança necessária para participar nas apresentações. Parece que as perguntas foram bem colocadas e as respostas do interesse de todos. Não gosto de fazer perguntas de ataque e que possam deixar o(a) apresentador(a) embaraçado(a), mesmo que tivesse a oportunidade de o fazer. Vi suficientes pessoas da audiência a fazerem perguntas apenas para realçar os pontos negativos da apresentação, para saber que isso não ajuda em nada e contribui unicamente para denegrir a imagem de todos. Em alguns casos a coisa chegou a aquecer e pequenas discussões iniciavam. Eu prefiro lançar uma perguntar mais ao lado que leve o locutor a ponderar e a detectar por si mesmo que talvez haja qualquer coisa no seu estudo que precise ser pensado. Desta forma crio um(a) aliado(a) com quem posso debater ideias em vez de um(a) inimigo(a) à espera de me atacar com o mesmo peso e medida na minha próxima apresentação.
A coisa quase sempre resulta bem. Depois dessa apresentação e enquando servia-me o almoço, um professor dinamarquês interrompeu-me para se apresentar e sugerir que almoçásse-mos juntos, o que aceitei. Ele fazia investigação na mesma área que eu à mais de 10 anos e estava interessado naquilo que estavamos a desenvolver na Penn State University. Depois de explicar-lhe ficou entusiasmado e curioso e mostrou interesse para partilhar informação e ideias comigo. Senti-me lisonjeado com isso. Nunca tinha acontecido que alguém de fora da universidade estivesse tão curioso com o meu trabalho. Trocamos os nossos contactos. Neste momento, já mandamos alguns emails para trás e para frente com algumas ideias.
Depois do almoço era altura de fazer um passeio turismo que eu estava ansioso por fazer à muito tempo. A visita à grande muralha da China.... ou melhor.... a visita a uma pequena porção dos 6500 Km da muralha!
A organização pois à disposição auto-carros para poder levar todas as 800 pessoas que se inscreveram para o passeio!

Uma hora de viagem e chegavamos à muralha.
A muralha da China é de cortar a respiração. Não basta ver nas fotos. É preciso ir lá e tentar imaginar tamanha construção realizada em zonas tão inóspitas que leva um a pensar como diabo iria um invasor subir tão íngrime montanhas? E aquele muro corre por kms a perder de vista sempre acompanhando o cume das montanhas.... pensar que aquelas pedras foram todas esculpidas quase sem ferramentas.... estonteante..... acho que vi suficiente pessoas na muralha a matutar sobre isso. Comprei algumas recordações, que levou bastante negociação antes que o preço baixa-se para níveis mais próximos dos preços típicos para chineses, e viemos embora.
No autocarro tive a sorte de sentar-me ao lado de uma das pessoas mais famosas no mundo da QAI, o professor Fanger da dinamarca. Este ao saber que eu era Português não deixou de gabar a sua primeira cerimónia de doutoramento honorário em Coimbra em que o Professor Oliveira Fernandes (Professor Catedrático de Transferência de Calor na FEUP) tinha participado e, certamente convidado. Avançou que jamais se esquecerá o requinte da cerimónia e o jantar num dos palácios reais. Os onze doutoramentos honorários que se seguiram em outros países nunca seriam tão dislumbrantes como o do Coimbra.

Chegados ao hotel, era altura de fazer planos para essa noite. O professor tinha uma reunião com uns professores da Singapura. O Jason queria sair, a Yazhuo e o Alex não podiam. O Bin, um amigo da universidade que tinha chegado a Pequim nessa tarde queria jantar. Portanto, toca a combinar com todos e chamar as suecas que tanto reboliço causou no Jason, que mesmo sem as conhecer, já estava a dar-lhe a volta à cabeça. Claro que algumas histórias que lhe contei e passadas nos Verões do Algarve tinham-lhe aumentado a curiosidade.
20 minutos de taxi, e 10 minutos a pé e estávamos sentados à mesa de um restaurante local com comida tradicional de uma região do sul da China (ChongQing). O menu era dificil de ler! O Bin teve que fazer as hostes da casa e traduzir tudo.

A comida na China é totalmente diferente daquilo que se serve nos restaurantes chinese do mundo ocidental. Em State College não passa uma semana sem que eu vá pelo menos uma vez a um dos muitos restaurantes chineses. Mas sempre me enganei a pensar que comia comida chinesa. A verdadeira comida chinesa não tem paralelo com o que se come nos restaurantes. É 100 vezes melhor... no mínimo.... e a comida vem com todos os extras que possam imaginar, extras esses que são removidos nos "países do Ocidente"..... coisas como espinhas, ossos, patas, cartilagens, estômago de vaca, sangue... vem lá tudo. Não é que me arrepiasse.... afinal, em Portugal também comemos de tudo. Mas não se vê estas iguarias nos nossos restaurantes chineses. Qual chop sue de gambas??? Na China pega-se no caranguejo e parte-se à dentada e cospesse os restos da carapaça para a mesa.
Claro que na China se vai além disso. Não em todo o país, mas existem zonas aonde animais para nós domésticos são parte da gastronomia e outras coisas como baratas e serpentes. Isso toda a gente já ouviu e é verdade. Mas não em Pequim.

As suecas já tendo experimentado ao de leve no hotel o mastigar de alguns ossitos estavam um bocado apreensivas nesta sua primeira vez num restaurante chinês de rua. Tão apreensivas andavam, que nos dias anteriores tinham jantado na Pizza Hut do centro comercial ali ao lado! Por tanto, naquele restaurante e logo para começar disseram que eram vegetarianas! Depois de alguma tradução do menu, perceberam que nem tudo vinha com ossos e cartilagens, e passaram a ser meias vegetarianas. Quando a comida apareceu na mesa e depois de a terem provado deixaram o vegetarismo de lado e passaram a comer tudo o que podiam.... com todo o gosto. A comida estava mesmo boa. O vinho chinês não estava mau e tivemos que encomendar outra garrafa.

O Jason ainda não tinha chegado. Possivelmente andava a passear com alguma amiga que o irmão lhe tinha apresentado. Ultimamente a familia andava preocupado com ele, porque na sua idade (31 anos) o “normal” na China seria que ele já tivesse casado e com filhos. Por isso, quando ele voltava a casa a primeira coisa que lhe perguntavam era pela namorada. Mas, mais uma vez, ele voltava sem namorada. Portanto, numa tentativa de mudar o seu destino a familia apresentava-lhe geralmente algumas amigas. Esse facto era apreciado pelo Jason porque quando as amigas chegavam a ele já vinham com aquela boa impressão que só a familia consegue transmitir!
O Jason, tinha passado o final da tarde com uma rapariga que por sinal, ao fim de dois dias estava doida por ele. Ele também se encantou por ela. Ela era jovem, bonita e, ao contrário do habitual, possuía um apartamento e uma casa só para ela em pleno Pequim e conduzia um BMW descapotável. Parecia que tinha encontrado a mulher perfeita. No entanto, com a sua vida nos EUA não era fácil manter uma relação à longa distância com uma rapariga que tinha apenas conhecido.
Quando ele chegou ao restaurante vinha claramente alegre.

Tinha passado um bom fim de tarde.... aliás, como já passava das 22h00, o passeio tinha-se prolongado para além da tarde e para além da hora marcada do nosso jantar! Fiz notar-lhe que horas marcadas com amigos são horas para cumprir. Mas ele imediatamente apontou que há certos assuntos que simplesmente não podem ser adiados, sobretudo naquele dia em que a tentativa de obter uma entrevista na embaixada dos EUA na companhia do Alex tinha, mais uma vez, saído frustradas e ele precisava alguma atenção mais chegada.

O Jason serviu-se de um copo de vinho e num instante lançou-se numa conversa alegro mas non-tropo (por enquanto) com as suecas. Este tipo saiu-me cá um adagio do caneco.
O Bin começou a sentir-se cansado e preferiu voltar ao hotel e o resto do grupo seguiu para uma zona de bares. Era quarta-feira e, mais uma vez, a vida nocturna estava um bocado morta. Demos uma volta pela rua dos bares, entrámos em duas discotecas de aspecto duvidoso e acabamos por preferir sentar na esplanada de um bar. A noite estava quente e uma Tsing Tsao fresquinha soube mesmo bem. Ao fim de duas horas de conversa decidimos que eram horas de voltar. Metêmo-nos todos no mesmo taxi, incluindo o Jason, que reparou que se tinha esquecido da chave da casa do irmão e não queria acordá-lo àquela hora da noite. Por isso convidei-o a ficar no hotel. Afinal, só estavamos eu, o professor e o recém chegado Bin a dormir no quarto e, certamente que caberia mais um. Chão não faltava, ou se quisesse podia dormir na mesma palhota que eu, desde que aguentasse com os roncos do professor que àquela hora já devia fazer cintilar os castiçais do corredor!
Mas, ele ao ver quanto as camas eram estreitas achou que talvez não fosse boa ideia. Dormir num pedaço do chão que não tivesse ocupado por algumas das malas de viagem, seria um risco de ser calcado a meio da noite por um pesadote, dorminhoco e surpreendido professor, que ainda reservava alguma amargura das voltas à embaixa americana do dia anterior. O certo seria que depois da calcadela ainda levasse com um biqueiro. Não era certamente um bom sono que tinha pela frente se é que chegasse a dormir. Por isso, o melhor foi mesmo bater em retirada e ir procurar um quarto para ele só, o que acabou por servir os meus interesses também.