Quinta-feira, 08 de Setembro de 2005Acordei tarde e o professor já tinha saído para a sua caminhada. Quando ele chegou estava eu a preparar-me para dar uma corrida. Mesmo sendo mais tarde que o costume eu não precisava de estar na conferência tão cedo porque não havia nada naquela manhã que me interessasse muito. Mesmo assim dei um pulo a uma sessões.
Nessa manhã andava a matutar se iria a Dalian ou não. Era uma daquelas oportunidades que não voltaria a aparecer: ter um amigo chinês em férias a caminho da sua cidade e experimentar um pouco da cultura chinesa parecia ser uma oportunidade única que certamente não irá aparecer novamente. Telefonei ao Jason, mas ele ainda deveria estar a dormir. Assisti a outra sessão e voltei a telefonar. Já passava das 11h00 e ele deveria estar acordado. E estava.... meio acordado. Aconselhei-me sobre a viagem e acabei por me convencer que era melhor mesmo ir a Dalian e adiar a minha viagem de regresso por três dias. Marquei encontrar-me com o Jason para almoçar no hotel. Ele não estava longe. Na noite anterior não tinha ficado no mesmo hotel, mas procurou outro nas redondezas que fosse mais barato.
Durante o almoço falamos dos nossos planos para voar a Dalian. Ele iria comprar os bilhetes essa tarde.
Em Pequim nada estava resolvido em relação ao visto de regresso. Quando o Alex entrou na embaixada dos EUA no dia anterior entre as 15h00 e as 17h00 como haviam comunicado ao professor, a mensagem foi completamente diferente. A pessoa com quem falou nunca tinha ouvido falar dessa sessão especial para chineses que comparecessem com amigos americanos. Mais a mais, a única maneira era mesmo através de marcação de entrevista. Nesta altura, só lhe restava a marcação para dali a duas semanas e não tinha mesmo nada a perder em finalmente ir visitar a sua familia. Quanto mais cedo melhor. Resolvemos sair de Pequim logo que a conferência terminasse, ou seja, no dia seguinte à noite no último vôo às 22h00. A sua familia iria-nos esperar ao aeroporto pelo tão aguardado Jason.
Após o almoço encontrámo-nos com o professor para irmos visitar a cidade proibida. Estava ansioso por visitar este impressionante complexo de monumentos que tinha alojado 600 anos de emperadores chineses da dinastia Ming e Qing. Apanhámos um taxi no hotel. Nunca nos era possível agarrar o primeiro taxi que nos aparecia. Em Pequim existe dois tipos de taxis. Os antigos, geralmente citroen xantia, são pequenos, estão bem batidos, com os estofos bem gastos e não possuem ar condicionado. Os novos, que começaram a ser introduzidos na cidade no âmbito da preparação da cidade para os Jogos Olímpicos de 2008, são uns mais modernos Hiundais, equipados com ar condicionado e ecrâns LCD nos assentos de trás. Sempre que aparecia um dos taxis antigos recusávamos entrar e esperávamos por outro. É esquisito negar um taxi. Nunca tinha feito e acho que nunca teria feito se o Jason não o fizesse com a maior das naturalidades. Se não gostas, não aceites. Dali para a frente estava determinado a andar de taxi só se fosse no estiloso Hiundai. Lembrei-me então quanto relativo as coisas são. Em Portugal ninguém recebe um Hiundai de bons modos. Até os autocarros são de marca mais conceituada. Um taxi é um Mercedes e ponto final.
O Jason não tinha tempo para nos acompanhar na nossa visita aos palácios da cidade proibida. Ele saiu de taxi connosco na entrada norte da cidade mas dirigiu-se para o centro comercial para comprar as nossas passagens aérias.

A cidade proibída é de pasmar. Já eu estava tolo da extensão e da espessura do muro exterior quando, depois de entrar, reparo que aquilo era só a primeira protecção.... ainda há um segundo muro..... não admitra que chamem a isto proibido. Depois de entrarmos aparecem palácios atrás de palácios. E quando se vê o primeiro, dada a sua grandiosidade e beleza, um pensa que está perante a casa do emperador. Mas quantos palácios passei aonde a placa descrevia que o palácio tinha sido usado por um dos emperadores para realizar uma festa em homenagem de....., ou o emperador trocava a roupa neste palácio antes de......, ou o professor de filosofia viveu neste.... mas que raio.... aonde fica afinal a casa principal?..... mas quanto mais se caminha para o centro da cidade maior a grandiosidade dos palácios, e finalmente chega-se ao capoeiro principal que é deslumbrante e todo ornamentado.
A cidade proibida começou a ser construída por volta de 1300 e terá ocupado mais de um milhão de trabalhadores e cem mil artesões, quase toda a classe trabalhadora de Pequim. Durante os séculos e dinastias evoluiu, mas a arquitectura inicial ficou sempre marcada. O eixo principal da cidade (norte-sul) está ladeado de 12 palácios, seis na parte oeste e seis na parte este aonde o emperador “guardava” as suas comcubinas. Estas chegavam a ser perto de 100. Ao mesmo tempo, viviam nesses palácios cerca de 3000 meninas bonitas chegando a serem 9000 no tempo de um certo emperador. Façam as contas. Se um emperador tivesse com uma menina diferente todas as noites levaria quase 25 anos a fazer a ronda, sem contar com os feriados e as noites perdidas a explicar às suas cem mulheres (concubinas) o porquê de ter chegado atrasado na noite anterior. Notem que a meio da ronda provavelmente o emperador quereria renovar o stock porque, com tamanha espera as meninas deixavam de serem tão bonitas quanto eram no inicio da ronda. Ora, se se renova ao fim de, por exemplo, dez anos, e se leva com mais 9000 raparigas bonitas então, parece-me a mim, que o emperador estava perante uma missão impossível, se não quisesse fazer horas extras.

Não tivemos tempo de ver muito. Aquela cidade é suficientemente grande e fantástica para se dedicar uma semana inteira. Como estavamos longe de ver tudo, decidimos que iriamos mesmo passar de rapidinho pelos palácios e seguir puramente a direcção sul, no sentido do portão de saída para a praça de Tiananmen.
Cá fora, e virado para a praça estava a tribuna, ainda parte da cidade proibída, de onde os oficiais do governo assistem às paradas militares. Estre a cidade e a praça há uma via de um só sentido com, talvez, dez faixas de rodagem.... aqueles tanques soviéticos deviam ser mesmo largos. Era, obviamente impossível atravessar a estrada. Para isso, era preciso passar por um túnel.
Já na praça de Tiananmen, sentia-se bem a grandiosidade daquela praça. De um lado a cidade proibida, do outro o mausoleu do Mao Zedong e dos lados alguns edificios governamentais construídos ao estilo soviético, importação lógica do país que serviu de inspiração para tantos anos de governação comunista.
Tiananmem significa tranquilidade. No meio da praça, longe das 10 faixas de rodagem que ladeam o espaço e ignorando as centenas de turistas que por ali passeam consegue-se sentir alguma tranquilidade. No meio existe um memorial às pessoas da China, lembrando que é o povo que serve de coluna pilar à República Popular da China. O monumento é constituído por uma agulha central com o formato de obelisco e um patamar a todo o redor que era acessível por quatro conjunto de escadas distribuídas geometricamente. No entanto, vários seguranças protegiam o memorial e ninguém podia subir os cerca de 10 degraus para o patamar. Ali estava o monumento das pessoas da China, a ser vigiado para que ninguém o tocasse. Bem ao estilo do protesto de 1989 que resultou na morte de 100 (oficialmente) a milhares (estimativas) de estudantes, ali estava um exemplo dos muitos contrasenso da China: o do povo ser forçosamente livre de seguir os ideais do governo.

Na parte sul da praça estava o mausoleu de Mao Zedong, aonde o seu corpo estava embalssemado para exposição. Um bocado arrepiante mas lá estava o corpo do homem que moveu milhões de pessoas e uniu o país durante a sua revolta e governação, e que continua a ser a pessoa mais popular de toda a China. Centenas de pessoas esperavam em fila para comprar flores e e para aguardar a sua entrada.
Não são permitidas fotos no interior. As pessoas passam todas em fila perante a câmara ardente aonde o seu corpo encontra-se deitado dentro do caixão. As luzes iluminam a sua cara que, desprovida de qualquer circulação por 2 décadas, reflecte luz como um tampo de mármore branco polido.
Depois desta visita queriamos ver o Teatro Nacional que está em construção. A maquet to teatro que tinha visto no programa da conferência era fantástico. Uma semi-esfera sobre um lago. Parecia irreal. O edifício não parecia ter qualquer esquina. A parte central era envidraçado e a entrada era feita por um túnel por baixo do lago. Na maquet, o edifício parecia uma bolha de ar em flutuação. Claro que queria ir ver tamanha obra de arquitectura.
No entanto, não tinha bem a certeza aonde o edifício ficava e começamos a caminhar para sudoeste da praça Tiananmen como nos haviam indicado. Durante um bom bocado não dávamos com o teatro e tive que começar a perguntar. Após umas dez tentativas acabei por desistir porque não consegui falar com ninguém que entende-se inglês ou português. O professor, esse andava à distância. Parecia que estava meio envergonhado por pensar que os Chineses de alguma forma assustavam-se quando eu me dirigia a eles. Alguns, é verdade, hesitavam. De qualquer modo eu seu um gajo meio assustador! Mas a maioria não se assustava e alguns até acabariam por rir. Enfim, o professor vê as coisas de acordo com a cultura americana onde ninguém pergunta na rua aonde fica o quê, sem antes comprar meia dúzia de guias turistas, 2 mapas e direcções para o destino tiradas da internet. Eu, e como a maioria das pessoas neste mundo, preferimos a aproximação das pessoas locais, mesmo que não falemos a língua. O contacto com os locais enriquece a nossa experiência lá fora.
Bom, sem jeito de obter ajuda continuamos a caminhar e seguimos os nossos instintos. Depois de dois grandes quarteirões conseguímos ver o topo do teatro. Redondo, claro, não tinha como enganar. Para lá chegar era preciso ir dar uma volta ao quarteirão, a não ser que cortássemos numa viela de aspecto duvidoso e que assustou o professor. “Anda carago”, lá tive que lhe dizer em Português para ele me entender. “Bora lá, oh cagão”. Finalmente cedeu. Mas mal posémos o pé na viela, notei logo que o professor nunca tinha deixado a cadeira do escritório em muitos anos. “Que raio de pincél me saíste. Havia de meter-te em Caracas sozinho por duas noites e ias ver o que era bom”.

Ali estava uma rua que deveria representar toda a China de algumas décadas atrás.... se calhar menos. Estranhei mesmo a existência de tão estreita viela tão perto das grandes avenidas da cidade e da principal praça de Pequim. Imagino que antes da remodelação dos últimos 50 anos que a cidade deveria ser constituída de estreitas vielas como aquela, com casas de um ou dois andares coladas umas às outras. Havia lojas de rua aonde se comprava um bocado de tudo. A viela era relativamente suja, com vários amontoados de sucata e águas sujas a correr junto ao passeio. Àquela hora já se via algumas donas de casa a acender o lume à porta da casa ou a tomar um banho de balde depois de um dia de trabalho. Portanto, ali naquela rua via-se o passado de Pequim e o ainda presente da maioria da população chinesa. Apesar da relativa pobreza, nunca senti-me ameaçado. As pessoas pareciam humildes e e estas sim olhavam-nos com curiosidade e surpresas enquanto caminhá-mos. De certo que não passa ali muitos turistas.
O teatro tinha bem melhor aspecto na foto. O cenário ali, era outro: o da construção. O edifício não estava pronto, faltando, ao olhar exterior, apenas parte do telhado. Era grande, imponente, bem ao estilo monumental Chinês a que me vinha habituando. No entanto tudo à volta era pura construção. Camiões, gruas, máquinaria, etc. Nada de lago, entrada subterrânea, arvoredo, etc., para embelezar o cenário. Talvez daí a um ano a obra estivesse completa.
Já passava das 17h30 e decidimos agarrar um táxi de regresso ao hotel. No entanto, depois de acenar a uns duzentos taxis estavamos a ficar aborrecidos com a situação. A maioria dos taxis àquela hora e naquela parte da cidade estavam ocupados, mas já tinha passado alguns que estavam vazios e não pararam. Por sorte, uma rapariga simpática tirou algum do seu tempo para nos explicar que junto à praça de Tiananmen os taxistas estão proíbidos de parar para recolher pessoas para não causar congestionamento. Portanto, o melhor era ir para uma das transversais. Assim o fizemos e logo logo estavamos em andamento.
Quando cheguei ao hotel comecei a preparar a fazer a mala o melhor que podia para estar pronto a sair do hotel no dia seguinte. O fato teve que ficar de fora porque ainda tinha a apresentação para fazer no dia seguinte. Não gosto nada das coisas para a última. Tinha preferido ter feito a apresentação logo no primeiro dia e estar descontraído o resto do tempo. Mas, acho que talvez até foi pelo melhor. Se andasse mais descontraído era natural que nunda entrasse em mais nenhuma sessão da conferência depois da desilusão das primeiras sessões que assisti no primeiro dia.
O telefone do quarto tocou e a voz familiar de um amigo da universidade ouviu-se do outro lado. Era o Li, um cidadão chinês, que tirou uma especialização em AVAC na PSU. Depois de concluir a especialização em um ano, procurou emprego nos EUA que lhe desse a oportunidade de estar ligado à China. E teve sorte. Conseguiu um emprego na Florida numa empresa que planeia abrir escritório em Xangai ou Pequim. Portanto, o Li passa a vida de um lado para o outro. Vive, oficialmente, em Orlando com a sua esposa e espera que em breve se mudem para a China com um salário americano. Que mais se pode querer.
O Li não estava sozinho. Vinha acompanhado do Ruigang, outro Chinês que como ele tinha feito a especialiazação em AVAC. O Ruigang também queria um emprego americano com localização na China. No entanto, não teve a mesma sorte e acabou por regressar a Xangai, aonde trabalha numa das maiores empresas de projectos para edifícios.
Já não via estes dois amigos à mais de um ano e foi com bastante alegria que desci ao lobby do hotel para os ver. Esta viagem estava repleta de surpresas e demais coincidências. Primeiro o Alex, o americano que um mês antes revirava com toda a força o terreno da nossa casa. Depois, o Jason, que uma semana antes concluía uma série de projectos e decidia tirar umas pequenas férias. Agora, o Li que calhava de passar em Pequim numa das suas típicas viagens de Orlando à China e o Ruigang, que tinha vindo de Xangai a Pequim parcialmente a trabalho, parcialmente a lazer. Enfim, parece que os astros alinharam todos naquela semana.
Os dois amigos estavam de saúde e bem contentes com a sua vida. Achei que estavam bem melhor do que eu. Quando me imagino-me no laboratório a esmigalhar baratas e pêlo de cão e vejo estes professionais a abrir escritórios, acho que ando a perder grandes oportunidades. Mas, para eles nem pensar. Estavam todos orgulhosos por eu ter continuado com o doutoramento e que logo logo veria os resultados. Estar de fora tem dessas coisas: uma visão bem afastada e geral dos beneficios da educação e que, geralmente, vem-se a verificar. No entanto, para aquele(a) que vive o evento com tanta aproximação, esses benefícios nunca parecem ser tão óbvios. Vamos ter esperança.....
Não tardou muito, a Yazhuo apareceu para jantar. Infelizmente, o Li e o Ruigang tinham outros compromissos e tiveram que ir embora.
Eu, a Yazhuo e o Bin fomos jantar a um restaurante ali próximo, mesmo no meio da zona comercial. O restaurante tinha dois pisos e estava num edifício envidraçado. O interior via-se todo de fora e devido aos aquários, luzes, etc. .... dava um cenário mais tipico de um centro comercial. A comida era escolhida junto aos aquários. Eles retiravam dos aquários aquilo que a gente apontasse. Tinha lá quase de tudo. Algumas coisas nem imaginava o que fosse. A Yazhuo, mais experiente, fez as escolhas enquanto eu tirava imensas fotos.
O jantar, estava mais uma vez uma delícia. O tempo que esperamos pelo jantar não foi muito, especialmente tendo em conta que os peixes não estavam préviamente preparados. O Alex apareceu e juntou-se ao gang. Ele adorou as escolhas da comida. Quem não?
Depois do jantar regressei ao hotel para dormir uma boa soneca. Estava com o estômago meio cheio de boa comida e cerveja Tsing Tsao.